Era dos Ventos – Ousadia e um futuro promissor

Hoje participei pela segunda vez consecutiva de uma degustação do grupo que se intitula Brasil Fora da Curva, que tem por objetivo principal conhecer os vinhos de qualidade que estão sendo produzidos em terras tupiniquins mas que infelizmente ainda não são de conhecimento de muitos.

O painel estava montado com 8 rótulos da Era dos Ventos, um projeto que nasceu de uma paixão e de um sonho. Sonho este de resgatar a alma perdida do vinho por meio de métodos ancestrais e, também, de valorização de castas quase extintas.

Luís Henrique e Talise Zanini – casal de vinicultores gaúchos – se juntaram com Álvaro Escher e ao empresário Pedro Hermeto do Restaurante Aprazível, para criar a Era dos Ventos, vinícola experimental como os idealizadores intitulam o projeto.

O grande barato da degustação de hoje foi que os três primeiros vinhos – dois brancos e um espumante – foram vinificados com a presença da casta, conferindo uma cor mais viva aos vinhos que ficaram conhecidos mundialmente como vinhos laranjas quando vinificados dessa forma.

Detalharei num próximo post todo o processo de produção dos vinhos laranjas.

Vamos aos vinhos:

Trebbiano On the rock 2016 – o que dizer?Neutralidade básica da casta Trebbiano. Um vinho vinificado como laranja, ou seja, em contato com as cascas. Coloração dourada apesar da jovialidade. Aromaticidade abrindo com o tempo em taça com notas de laranja e mel. Acidez média. Em boca, notas minerais, toques salobros. Vinho interessante.

Vinho espumante Nature 2011 – um espumante, realmente fora da curva. Novidade! Tanto no nariz quanto no palato, me lembrou um Jerez Manzanilla. Um espumante feito com a casta italiana Peverela que chegou ao Brasil nos anos 30 através dos imigrantes italianos. Apresentou notas de pinenta, nuances de petróleo e querosene lembrando um bom Riesling e toques defumados. Um vinho difícil para o paladar do brasileiro porém um espumante que abre para muitas possibilidades de harmonização como o charuto e o presunto de Parma, pra citar algumas. Marquei como um dos meus favoritos.

Era dos Ventos Peverela 2013 – a cor, um cobre brilhante e límpido, chama atenção assim como sua aromaticidade com um nítido mix de nuts, cera e amêndoas. Vinho que apresentou uma ótima estrutura, elevada devido a grande maciez e acidez. Complexo! Um vinho branco muito bem elaborado e de grande qualidade. Vale ficar de olho nele pois em alguns anos estará ainda melhor. Gostei bastante desse branco, sendo um dos melhores que já degustei. Vinho que estará na minha adega com certeza!

Era dos Ventos Marselan 2013 – a casta Marselan foi desenvolvida pelo INRA a partir das castas Cabernet Sauvignon e Grenache. Mostrou sua jovialidade pela cor ainda púrpura com reflexos violáceos. Extremante agradável ao palato com boa acidez, fruta e carga tânica. No nariz evoluiu quando deixado em taça mas apresentou uma fruta madura, toques de geleia e madeira bem integrada. Foi o escolhido com um dos melhores dessa tarde pelos comensais presentes, inclusive por mim. Muito bom!

Era dos Ventos Tempranillo 2015 – a recomendação do enólogo era para degustar esse vinho por pelo menos 4h. Isso significa que o vinho possui muita estrutura. De fato, o vinho merecia um bom tempo no decanter mas não houve tempo pra isso. Em taça mostrou-se, ainda, muito jovem e fechado. Uma explosão amadeirada que a decantação teria resolvido. Guardadas as devidas proporções, me lembrou um crianza de Ribera del Duero mas com um toque de brasilidade extremamente agradável. Equilíbrio elevado. Melhorou muito quando deixado em taça mas ainda com muito potencial para evoluir. Vale ter uma ou mais garrafas na adega para observar como se comportará daqui a alguns anos.

Era dos Ventos Merlot 2013 – muito interessante o painel proposto para a análise sensorial dos vinhos Merlot, foram servidos simultaneamente o Era dos Ventos Merlot 2013 e o Ícone Era dos Ventos Merlot 2012. Este, com 18 meses em barricas de carvalho, apresentou-se muito elegante e equilibrado. Frutado com boa acidez, um vinho de bom corpo e boa presença em boca com taninos finos e macios. Vinho pronto para ser consumido.

Ícone Era dos Ventos Merlot 2012 – já esse rótulo, estagiou 24 meses em barricas de carvalho, 6 meses a mais que o Merlot Era dos Ventos. Chegou na minha taça um pouco tímido e fechado. Com o tempo foi abrindo e mostrando todo seu potencial. Boa carga tânica com bastante presença no palato. Acidez elevada equilibrado-se com o tanino e a maciez do vinho. Ótima estrutura e com uma aromaticidade ligeiramente mais complexa que o anterior com toques frutados, nuances de especiarias e a presença dos descritores aromáticos da madeira em perfeita harmonia no vinho. Mais um belo exemplar de Merlot brasileiro. Me agradou bastante! Mais um para minha adega.

Ícone Era dos Ventos Teroldego 2012 – confesso que bebi poucos Teroldegos mas dentro desse universo, este rótulo me agradou bastante. A safra histórica de 2012 favoreceu o trabalho do enólogo dando uma fruta de qualidade. Vinho com ótima estrutura, acidez na medida certa e muito agradável no nariz com notas frutadas delicadamente bem integradas com o toque amadeirado.

Diante da análise acima, percebe-se que estes artesãos estão produzindo vinhos brasileiros de admirável personalidade.

Saúde e até a próxima,

Rafael Puyau

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