Um Malbec do Valle de Uco em homenagem ao Malbec World Day

Vins Noirs

A Malbec tem origem no sudoeste Francês, onde reina absoluta na cidade medieval de Cahors, sendo chamada por Côt e tendo seus vinhos conhecidos como “Vins Noirs” ou Vinhos Negros – numa tradução livre – pois o vinho é bastante escuro e encorpado, com boa fruta e mais austero e seco do que os Malbecs argentinos.

Dependendo da sub-região, os vinhos de Cahors podem ser mais leves para o consumo mais precoce ou mais estruturado e passível de longa guarda.

No final do século XIX, a praga da filoxera devastou a vitivinicultura francesa. Os viticultores ficaram sem uvas para produzir seus vinhos e precisaram replantar seus vinhedos, desta vez, de forma enxertada. Essas vinhas reagiram muito mal a esta nova situação, dando origem a fermentados medíocres, com qualidade muito abaixo do que tinham anteriormente.

Somente no final dos anos 40, depois de muita pesquisa, chegou-se ao clone 587 da Malbec, que teve uma ótima adaptação na região. Não entrarei no assunto sobre clones aqui nessa postagem, deixando esse conteúdo para uma outra oportunidade.

Château de Chambert – Cahors

Originária de Bordeaux, esta casta cruzou o Atlântico em 1852 e chegou na Argentina em 1853, pelas mãos do francês Michel Aimé Pouget (1821-1875), agrônomo contratado por Domingo Faustino Sarmiento para levar adiante a direção da Quinta Agronômica de Mendoza.

Sua adaptação às novas condições de clima e solo foi espetacular!

Esta iniciativa tinha por objetivo incorporar novas variedades de cepas como meio para melhorar a indústria vitivinícola argentina. Em 17 de abril de 1853, com o apoio do governador de Mendoza, Pedro Pascual Segura, o projeto foi apresentado perante a Legislatura Provincial, visando fundar uma Quinta Normal e uma Escola de Agricultura. Este projeto foi aprovado com força de Lei pela Câmara de Representantes em 6 de setembro do mesmo ano.

A vitivinicultura argentina floresceu, com um crescimento exponencial, graças ao trabalho dos imigrantes italianos e franceses, e, com ela, a Malbec, que rapidamente se adaptou aos diversos terroirs onde fora plantada.

A Malbec se desenvolveu melhor em Mendoza do que em sua região de origem Bordeaux

Assim, com o passar do tempo e com muito trabalho, esta casta tornou-se a uva emblemática da Argentina.

Os produtores de Cahors decidiram se ligar aos produtores argentinos na divulgação de seus produtos. Organizaram em 2008, em Cahors, as Premières Journées Internacionales du Malbec. A segunda mostra aconteceu em 2009, na Argentina.

Na London Wine Trade Fair, esses produtores apresentam-se juntos num único estande

O dia 17 de abril é para a Wines of Argentina não só o símbolo da transformação da vitivinicultura argentina, mas também o ponto de partida para o desenvolvimento desta cepa em solo argentino.

A primeira edição do Malbec World Day ocorreu em 17 de abril de 2011. Neste ano, foram realizados mais de 72 eventos em 45 cidades de 36 países. A receptividade do Malbec World Day (MWD) foi tamanha, que em sua segunda edição, em 2012, foram realizados 142 eventos em 68 cidades de 43 países ao redor do mundo. O Brasil passou a figurar nas comemorações do MWD.

A enorme transcendência internacional que o Malbec World Day vem conseguindo em cada uma de suas edições tem sido também graças ao apoio do Ministério de Relações Exteriores, Comércio Internacional e Culto da Nação Argentina. Mais de 40 representações da Argentina ao redor do mundo desempenham ano após ano um papel fundamental na repercussão que o Malbec World Day adquire nos meios internacionais.

Nada mais justo do que degustar um belo Malbec no dia 17 de abril de 2018. O meu escolhido, para essa homenagem, foi o Santa Julia Reserva Malbec 2016.

Santa Julia é uma vinícola criada por José Zuccardi em homenagem à sua filha única Julia. A empresa, com uma filosofia naturalista, prega a sustentabilidade como um todo; o vinho não é somente o resultado da terra, do clima e da variedade cultivada, mas também das pessoas que interagem e interferem na sua elaboração.

Em 2013 foi a primeira vinícola argentina a receber a certificação Fair for Life, que assegura aos consumidores que a empresa cumpriu diversas regras de qualidade e que todos os colaboradores da cadeia produtiva gozam de boas e justas condições de trabalho.

VALLE DE UCO

O vale está situado a uns 100 km a sudoeste da cidade de Mendoza e, nestes últimos anos, tem se transformado em um destino privilegiado para turistas e experts do vinho. Abrange territórios dos departamentos de Tunuyán, Tupungato e San Carlos, aos pés da Cordilheira dos Andes e são irrigados pelos rios Tunuyán e Tupungato.

Sua área total supera os 17.370 km².

O clima da região é temperado, com inversos rigorosos e verões quentes com noites frescas. A temperatura média anual é de 14,2ºC e possui mais de 25 mil hectares de vinhedos situados aos pés da Cordilheira dos Andes. O vale é um lugar privilegiado para a produção de uvas e vinhos de altíssima qualidade.

A amplitude térmica diária é de aproximadamente 15ºC, gerando uma excelente produção de cor e tanino nas uvas. Ali são criados vinhos destinados a uma longa guarda.

A bacia do rio Tunuyán atravessa a província de Mendoza de oeste a leste seguindo o paralelo 34º Sul. O clima e a água são fatores determinantes na região da bacia. A altitude e a distância do Oceano Atlântico, somados à presença da Cordilheira dos Andes que age como uma barreira aos ventos úmidos do Pacífico, modelam o clima da bacia.

O clima de tipo continental que existe na bacia traz como consequência grandes variações das condições atmosféricas gerando um efeito de considerável sobre os vinhedos.

Em 2012 a área plantada no Valle de Uco superava os 25.500 hectares, quase o dobro que em 2001. É evidente a grande expansão de uma das zonas de maior reputação da vitivinicultura argentina. Desse total, 3/4 correspondem a variedades tintas, uma vez que estas uvas tem tido uma excelente adaptação a esta zona de altitude em Mendoza.

A Malbec transformou-se na estrela do lugar com mais de 44% da área plantada, com um crescimento que triplica os hectares plantados há apenas uma década atrás.

Os vinhos tintos do Valle de Uco são de cor intensa e reflexo violáceo. Os aromas revelam fruta madura, especialmente frutas vermelhas. Na boca, costumam ter taninos marcados, com bom teor alcoólico e de acidez média.

Por outro lado, os brancos da região apresentam em geral baixa intensidade de cor com reflexos esverdeados. Os aromas predominantes são cítricos, frutados e florais. O nível de acidez é de moderado a alto.

A altitude da região, ao agir como moderadora das temperaturas máximas em um ambiente de baixa umidade relativa do ar e grande exposição solar, permite produzir uvas de grande intensidade e concentração de polifenóis. O solo é um fator determinante na elaboração de vinhos de qualidade.

No caso do Valle de Uco, o solo é aluvial, arenoso e pedregoso, o que se traduz numa excelente permeabilidade das raízes das videiras e boa drenagem.

O Santa Julia Reserva Malbec é produzido com uvas provenientes do Valle de Uco e vinificado com leveduras indígenas, o vinho expressa na taça fielmente seu terroir de altitude!

Com uma bela coloração rubi intensa, é límpido, brilhante e com lágrimas bem marcadas. No olfato apresenta uma intensidade mediana com aromas de frutas vermelhas e negras maduras – cereja, groselha e ameixa -, especiarias doces – alcaçuz e baunilha -, com leves notas amadeiradas. No palato, é seco, de corpo médio, com boa estrutura  e ótimo frescor, taninos macios e aveludados com sabores de frutas negras maduras – ameixa – complementadas por notas de especiarias, tabaco e um leve toque refrescante – canela.

Belíssima homenagem ao Malbec World Day. É um ótimo vinho e recomendo fortemente que conheça os rótulos da vinícola Santa Julia.

Saúde,
Rafael Puyau

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *