ViniBraExpo 2018, sucesso absoluto!

No primeiro fim de semana de agosto, nos dias 4 e 5, o Jardim do Città América foi palco da 2ª edição da ViniBraExpo, o festival onde o vinho nacional é o FOCO.

Foram nada mais que 4.500 pessoas visitando e prestigiando os mais de 50 produtores presentes no evento. Foi uma excelente oportunidade para descobrir novos terroirs brasileiros e, também, para conhecer melhor o que os nossos bravos e perseverantes produtores estão produzindo.

O festival contou ainda com mais de 10 masterclasses conduzidas por profissionais do setor com painéis interessantíssimos; e a convite do Gustavo Gualiardi Pacheco – um dos idealizadores – conduzi duas masterclasses no sábado – 4 de agosto, 1º dia do evento.

Às 14h iniciei Brancos fora da Curva e me permiti, também, a realizar essa masterclass FORA DA CURVA, de um jeito pouco comum mas já praticado por mim em outros eventos. Não utilizei slides como é de praxe e esperado pelos participantes. Meu speech se resumiu em apresentar as maravilhas que se encontravam nas taças.

Assim, fiz uma breve apresentação sobre minha caminhada no mundo do vinho e questionei os presentes sobre o que torna um produto fora da curva e o que esperar deles. Após o debate fomos a degustação propriamente dita!

Os produtores estavam presentes o que me encheu de orgulho mas, também, de muita responsabilidade.

Falar das criações para seus criadores não é tarefa fácil!

O 1º line Up do dia estava montado assim:

  • Torcello Moscato Giallo 2017 (Vale dos Vinhedos – RS)
  • Selvaggio d’Manny 2016 (São Joaquim – SC)
  • Vinhética Sauvignon Blanc Não Filtrado 2017 (Videira – SC)
  • Leone di Venezia Garganega 2017 (São Joaquim – SC)
  • Guaspari Vista do Bosque Viognier 2016 (Espírito Santo do Pinhal – SP)

No caminho para a sala de eventos onde ocorreria minha primeira masterclass, pude observar e constatar a expectativa e ansiedade estampada no semblante dos produtores em apresentar seus vinhos; e o público não decepcionou. O festival iniciou com um público ávido por degustar a qualidade dos vinhos nacionais. Uma fila enorme já se formava no lado de fora.

Essa mudança no relacionamento entre o vinho brasileiro e o consumidor é, no mínimo, animadora. Pesquisas de mercado comprovam essa mudança e reafirmam que estamos no caminho certo!

Agora vamos aos meus comentários e a minha análise sensorial dos vinhos do 1º painel. Irei acrescentar algumas informações sobre o método de produção, o terroir e o produtor quando necessário.

  • TORCELLO MOSCATO GIALLO – 2017 – 100% Moscato Giallo – 12% – Vale dos Vinhedos – um vinho de coloração citrina, límpido, brilhante e lágrimas bem marcadas. No nariz apresentou o frescor esperado por um vinho de 2017. Delicadas notas cítricas com destaque para maçã verde e nuances florais como o de rosas brancas. Em boca, mantém a elegância e o frescor percebidos no nariz. Acidez bem marcada. Leve e equilibrado.

  • SELVAGGIO D’MANNY – 2016 – 100% Sauvignon Blanc – 14% – São Joaquim – SC – não sei como definir seu estilo, se branco ou laranja mas é fato que os dois meses em contato com as cascas emprestou a esse vinho uma coloração dourada e uma complexidade aromática, simplesmente incrível. Como se não bastasse a fermentação realizada por leveduras selvagens e os dois meses de contato com as cascas, o vinho ainda estagiou por mais 15 meses em barricas francesas. Um belíssimo exemplar que recomendo decantá-lo antes de servir para que toda essa complexidade aflore. Como não dispúnhamos de tempo na masterclass, deixamos o vinho evoluir em taça. Coloração dourada, denso, lágrimas bem marcadas, límpido e brilhante. Em nariz uma explosão aromática que deixa o sistema olfatório enebriado de tamanha diversidade e qualidade dos aromas e perfumes percebidos. Não sou de caçar aromas nos vinhos mas aqui destaco as frutas secas, casca de laranja e toques de especiarias. Em boca, equilíbrio máximo entre a maciez e acidez. Álcool muito bem integrado ao vinho onde não percebemos os seus 14%. Uma bela e grata surpresa que encontrei na ViniBraExpo 2018.

  • VINHÉTICA TERROIR DE BLANC NÃO FILTRADO – 2017 – 90% Sauvignon Blanc e 10% distribuídos entre a Fiano e a Ribolla Gialla – 12% – Videira – SC – um vinho para fazer história pelas mãos do Sr. Gaspar Desurmont, um francês que produz em terras brasileiras, mas como o próprio costuma dizer – “não quero reproduzir um vinho francês no Brasil mas, sim, produzir um vinho brasileiro com sotaque francês“. Não se deixe influenciar pelo visual. Ele é TURVO! O vinho não passou pelo processo de filtração, então, temos um exemplar com mais textura e volume em boca. Um Sauvignon Blanc que se mostrou “selvagem” mas trazendo sua já tradicional acidez e notas de frutas cítricas e verdes devido ao clima frio de onde as uvas são provenientes. Interessantíssimo para entendedores e enófilos de plantão e antenados que desejam se aventurar e conhecer rótulos nacionais com propostas bem diferentes. Este vinho abre muitas possibilidades para harmonização, por exemplo.

  • LEONE DI VENEZIA GARGANEGA – 2017 – 100% Garganega – 13,4% – São Joaquim – SC – em 2012 assisti à um vídeo de Hugh Johnson, crítico inglês de vinhos, onde, em visita ao Brasil, questionava porque não produzíamos vinhos com castas italianas já que a região Sul teve forte influência e colonização italiana. Pois bem, eis que o Sr. Saul Bianco – neto de Guerino Bianco, fundador da vinícola – à frente da Leone di Venezia, só produz seus vinhos com castas italianas. Estudou enologia na Itália e trouxe todo o aprendizado e sua expertise para nos brindar com belíssimos caldos produzidos a partir de castas italianas. Este, em especial, é da casta Garganega, proveniente do Veneto região famosa pela produção do Soave, vinho branco produzido com Garganega e, também, pela produção do vinho doce Recioto. É uma variedade tardia com bom vigor, apresenta cachos grandes e grãos pequenos e soltos. Este exemplar brazuca, deixa muitos Soaves no chinelo! Com coloração dourada e aromas elegantes como damasco seco, erva doce, cítricos e baunilha. Em boca apresentou boa estrutura, é equilibrado e com notas de especiarias e toques de baunilha e de pimenta branca revelando sua passagem de três meses por carvalho junto as leveduras. Ótima acidez!

  • GUASPARI VISTA DO BOSQUE VIOGNIER – 2016 – 100% Viognier – 12% – Espírito Santo do Pinhal – SP – eu já havia provado o Vista do Chá Syrah e me encantei pelo vinho tamanha a qualidade apresentada pelo exemplar. Belíssimo vinho! A técnica de dupla poda realmente tem permitido a produção de grandes rótulos na região sul do estado de São Paulo e em Minas Gerais. Quando soube que o Vista do Bosque Viognier estaria no painel, minhas expectativas subiram. Sou grande fã da casta Viognier principalmente com o Côte Rotie Blanc e o Condrieu sem falar nos exemplares chilenos do Vale de Casablanca. Esse foi o último rótulo do painel da masterclass Brancos fora da Curva e não podíamos fechar de forma diferente. Um vinho de clima moderadamente frio apresentando notas cítricas e verdes além do tradicional toque floral típico dessa casta. Ainda percebemos uma fruta de caroço como pêssego, damasco e nozes. A acidez torna esse vinho deliciosamente bem equilibrado juntamente com sua passagem por madeira. Aromaticidade, equilíbrio e elegância para resumir como esse vinho se apresentou em taça.

Já o line Up da masterclass das 18h – Máxima expressão das castas estava formado com os seguintes rótulos:

  • Lídio Carraro Singular Teroldego 2010 (Encruzilhada do Sul – RS)
  • Guaspari Vista da Serra Syrah 2015 (Espírito Santo do Pinhal – SP)
  • Valmarino Cabernet Franc XXI 2016 (Vale dos Vinhedos – RS)
  • Batalha Tannat 2015 (Campanha Gaúcha – RS)
  • Pericó Benedictum 2012 (São Joaquim – SC)

Você já parou e se perguntou o que seria a máxima expressão de uma casta? Muitas respostas vieram à tona quando questionei os participantes como: A casta deverá se expressar em sua plenitude, quando encontra as condições ideais, terroir apropriado para seu cultivo entre muitas outras…

Enfim, é uma questão filosófica como costumo dizer pois ficaremos horas a fio discutindo sobre o tema sem, porém, chegar a uma única e definitiva resposta.

Pra mim, é um pouco de cada resposta. Nesse painel, tivemos o prazer de degustar excelentes exemplares e descobrir a vocação de algumas castas em território brasileiro com uma expressão pura e incomparável.

Iniciamos a masterclass com todos os vinhos nas taças. Foi um convite para que pudéssemos perceber a evolução dos vinhos e, também, fazer, no mínimo, duas análises sensoriais.

Começamos com o Teroldego da linha Singular da Lídio Carraro. Esta casta tem origem no norte da Itália na região de Trentino. Conhecida por emprestar muita cor ao vinho e aromas frutados, com frutos vermelhos e negros. O vinho já tinha iniciado a abertura de seus aromas quando fizemos a primeira análise, mas um vinho de 2010 com tamanha qualidade ainda precisava de mais tempo em taça. Foi o que solicitei aos presentes, para que deixassem um pouco de vinho na taça para que voltássemos mais tarde para uma nova análise. De misterioso e provocante à um exemplar cativante com notas de fruta negra madura, mirtilo, ameixa, tabaco, cacau e especiarias. Sensação de vivacidade e densidade em todo o palato. Um vinho de impacto e personalidade marcante.

Em seguida foi a vez de provarmos o Syrah da Vinícola Guaspari. Essa nova região do Sudeste que abrange o sul de São Paulo e o estado de Minas Gerais tem sido responsável por produzir Syrahs de grande qualidade como os que encontramos no Rhône Setentrional. Eu, particularmente já havia degustado o Vista do Chá Syrah dessa mesma vinícola como já mencionei acima. Confere lá no meu perfil do Instagram o post que fiz logo após ter degustado e me encantado com esse vinho!

Voltando ao painel dessa masterclass, o Vista da Serra seguiu a tradição desse novo terroir em produzir ótimos Syrahs. Será que a Syrah encontrou seu terroir em terras brasileiras? O que posso dizer é que esse Syrah mostrou muita personalidade. Nada parecido com os do Vale do Rhône Norte, salvo pelo uso da mesma casta que empresta cor, tanino e notas de especiarias. De coloração forte e intensa e aromas profundos como ameixa, mirtilo, notas de café, cacau, frutas negras em compota e com taninos sedutores e robustos.

Na terceira taça estava o Cabernet Franc de Pinto Bandeira. Apesar da Merlot ser, até o momento, a casta emblemática no Brasil e a casta autorizada para a D.O.V.V (Denominação de Origem Vale dos Vinhedos), a Cabernet Franc vem ganhando força e encontramos rótulos de grande expressão como, por exemplo, o Cabernet Franc da Dal Pizzol – sem passagem por madeira – e este da Valmarino com 100% de Cabernet Franc proveniente da IP Pinto Bandeira. De coloração rubi com reflexos violáceos, límpido e brilhante. No nariz é elegante mostrando certa complexidade com notas de especiarias, pimenta preta, café, chocolate e leve tostado. Em boca com boa acidez, bom corpo com taninos finos e boa presença de madeira devido aos 16 meses em que estagiou em barricas de carvalho de primeiro uso com média tosta.

A novidade, ficou por conta da Batalha Vinhas & Vinhos, produtor da Campanha Gaúcha que faz um trabalho sério na produção de bons Tannats. Esse rótulo especificamente estava um pouco fechado, mas o tempo em taça ajudou bastante o vinho evoluir e começar a apresentar suas qualidades. Com uvas colhidas manualmente e com seleção de cachos, estagiou em carvalho francês de média tosta. Aromas de especiarias, frutas negras e leve toque de cacau. Estrutura, bom volume em boca, com equilíbrio elevado e muita carga tânica, típica da casta Tannat.

Para fechar o painel da 2ª masterclass do dia, tivemos o Pericó Benedictum – 100% Cabernet Sauvignon – do Vale de Pericó à 1.300m. Um vinho elegante, com vermelho rubi intenso. Aromas presentes de ameixa, mirtilo, cereja negra e café. Com ótima estrutura, confirma os aromas de nariz apresentando em boca um toque a mais de baunilha e tostado devido o estágio em barricas de carvalho francês. O curioso desse vinho é que as uvas foram colhidas com sobrematuração, mais ou menos 47 dias após o fim do ciclo vegetativo da Cabernet Sauvignon, para preservar a fruta no produto final. É um vinho com grande capacidade de evolução e potencial de guarda.

O futuro da vitivinicultura brasileira é muito promissor.

UM BRINDE AO VINHO NACIONAL!

Saúde e até o próximo post.
Rafael Puyau

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