Que painel de degustação foi esse? DEU BRANCO!

No dia 09.11.2018 às 19:30 – no Rubaiyat Rio, realizei junto com a sommelière Marcia Anholeti a 1ª masterclass da parceria que que firmamos em 2018 e leva o nome de ENOGOLES.

Depois de vários anos de experiência no setor de vinhos, resolvemos unir forças e apresentar uma agenda de eventos presenciais e atividades online para pessoas que desejam aprender mais sobre vinhos, porém de uma forma mais descontraída e acessível. A agenda será divulgada ainda esse mês.

Então, montamos um painel diferente e provocador – para essa 1ª masterclass – onde selecionamos 6 rótulos brancos de diferentes estilos e nacionalidades e, principalmente, com castas pouco conhecidas.

Assim, DEU BRANCO! Degustando castas não convencionais nasceu sob a marca ENOGOLES pensada e desenhada a quatro mãos por dois profissionais com longa estrada. Tivemos muito conhecimento compartilhado.

Mas antes de ganhar a luz do dia, quando da tomada de decisão sobre esse evento, ficamos pensando qual tema seria interessante para iniciarmos o projeto ENOGOLES. Confesso que pensamos em vários, mas a Marcia sugeriu que fizéssemos sobre vinhos brancos com castas poucos conhecidas. Aceitei a idéia na hora e fomos para a escolha dos rótulos. Resolvemos eleger uma única importadora – isso facilita as negociações – e a partir daí selecionar os 6 rótulos para o painel. A eleita foi a importadora Decanter pois a Marcia é representante e distribuidora em Cabo Frio e eu tenho um ótimo relacionamento com eles desde a época em que fui seu distribuidor na serra fluminense do Rio de Janeiro.

A montagem de um painel de degustação não é tão simples quanto parece. A seleção deve fazer sentido, os rótulos devem conversar entre si e fazer sentido juntos! Li diversas fichas técnicas e pesquisei muitos produtores para que pudéssemos construir algo que fizesse sentido para os participantes e que, também, atendesse a nossa proposta de apresentar vinhos de grande qualidade com castas pouco convencionais. Tarefa nada fácil, mas conseguimos chegar numa seleção muito satisfatória. E os elegidos foram:

  • Stellenrust Chenin Blanc 2015
  • Claude Val Blanc 2015
  • Château des Gillières Sur Lie Grand Réserve 2014
  • Luis Cañas Blanco Fermentado en Barrica 2015
  • Renosu Bianco (Sem safra)
  • Alvarinho Parcela Única 2009

Como estávamos trabalhando com castas pouco conhecidas para a grande maioria, o objetivo da masterclass era realmente o de jogar uma luz – colocar os holofotes – sobre essas castas e, assim, optamos por não colocar um jantar acompanhando, tendo somente o couvert para dar suporte.

Normalmente os eventos que realizo no Rubaiyat Rio são mais intimistas e para um público entre 10 a 15 pessoas no máximo. Não faço uso de nenhum tipo de projeção. Isso torna a minha apresentação mais dinâmica e me aproxima dos participantes. O restaurante monta uma mesa ao melhor estilo de confraria onde todos podem compartilhar conhecimento, histórias e as impressões dos vinhos.

AS CASTAS

Antes de entrar na análise sensorial de cada vinho, quero falar um pouco sobre as castas que produziram esses vinhos. Aqui no Brasil, a maioria dos consumidores conhece as castas clássicas francesas como a Chardonnay e a Sauvignon Blanc; a alemã Riesling e as italianas Moscato Giallo e Moscato di Alexandria. Entretanto, o mundo do vinho é muito generoso e nos proporciona uma variedade incrível de castas brancas que produzem belíssimos caldos! O sub-título da masterclass – Degustando castas não convencionais – foi um convite para o consumidor mais atento poder usufruir de um momento especial e explorar mais o universo dos vinhos brancos.

  • Chenin Blanc – conhecida na África do Sul como Steen, sendo parente da casta Savagnin Blanc e levando à suposição de que é nativa da parte norte da França. Pesquisas sobre sua origem estão em curso, no entanto, a análise de DNA determinou que a Agudelo, uma casta considerada nativa da Galícia – na Espanha – está diretamente ligada à Chenin. É uma casta de alto vigor, que se adapta muito bem a diferentes climas e solos, tendo seu lar no Vale do Loire. A videira é resistente ao frio, ao vento e à doença. De brotação precoce, produz vinhos de acidez alta. Suscetível à botrytis cinérea é muitas vezes usada para fazer vinhos doces, já que tem a capacidade de reter a acidez. Os vinhos podem envelhecer por décadas.
  • Grenache Blanc – variedade vigorosa. Produz vinhos brancos bastante encorpados, mas com baixa acidez. É propensa à oxidação. Grenache Blanc, Grenache Gris e Grenache Noir compartilham a mesma base do DNA com diferentes fenótipos ou expressões externas desses genes.
  • Rolle – produz vinhos untuosos, redondos com baixa acidez. É uma casta italiana – Vermentino – que fez seu caminho até o sul da França – Languedoc, Roussillon, Provence e Rhône – e a ilha da Córsega. Prefere terrenos costeiros.
  • Chasan – é um cruzamento entre Palomino e Chardonnay; sua brotação e amadurecimento são precoces. Acidez baixa . É uma casta propensa à oxidação.
  • Mauzac – brotação e amadurecimento tardios. Produz vinhos aromáticos e com acidez alta. Acredita-se que seja nativa do sudoeste da França. A Mauzac Blanc não é parente da Mauzac Noir.
  • Sauvignon Blanc – vigorosa, nativa do Vale do Loire, prefere climas frios e ensolarados. Produz vinhos aromáticos, brilhantes e de acidez alta. É uma videira indisciplinada e produtiva, o que talvez explique a raiz do seu nome. Sauvignon vem da palavra Sauvage que significa selvagem. Compartilha parentesco com o Savagnin Blanc.
  • Muscadet – oficialmente chamada de Melon de Bourgogne ou Melon para abreviar. Tem sua origem na Bourgogne. Não há relação com a família das uvas Muscat. É resistente à geada e é muito produtiva. Um cruzamento entre a Pinot Blanc e a Gouais.
  • Viura – conhecida na região espanhola de Rioja, recebe o nome de Maccabeu no Languedoc-Roussillon e Rhône e Macabeo em outras regiões na Espanha. Floresce e amadurece tardiamente. Produtiva e com tendência a apodrecer. Produz vinhos com acidez moderada.
  • Malvasia – existe na Itália tipos diferentes de Malvasia, pelo menos 17 variedades catalogadas, a maiora são brancas mas há algumas tintas. Pode produzir vinhos aromáticos enquanto que outras versões produzem um vinho com uma fragrância mais neutra. Todas essas 17 variedades compartilham de um origem grega. Confere à seus vinhos uma boa acidez.
  • Moscato Bianco – cultivada no Piemonte desde o início do século XIV, segundo registros. Já no século XIX, esta casta se tornou uma das variedades líderes em cultivo não só no Piemonte como em toda a Itália. Essa casta tem vários nomes e alguns sinônimos como moscato d’asti, moscato di canelli, moscato di tempio entre outros. Não confundir com Moscato Giallo ou Moscato di Alexandria (Moscatellone Bianco ou Zibibbo) pois são diferentes e crescem em outras partes da Itália. Produz vinhos aromáticos com versões doces e espumantes.
  • Alvarinho – é uma variedade nativa da Galícia na costa norte do Oceano Atlântico na Espanha. É a uva principal da denominação de Rías Baixas. Esta casta apresenta uma acidez alta e, geralmente, é vinificada como um vinho branco leve ou, por vezes, num estilo mais estruturado com estágio em madeira ou sobre as leveduras. Quando plantada próxima a costa atlântica pode manifestar no vinho uma característica salina, o que torna esse vinho gastronômico.

Agora que já conheceu um pouco de cada casta, vamos para a análise sensorial de cada rótulo. O desafio que lançamos foi de sempre surpreender a cada rótulo. Eu e a Márcia nos dividimos da seguinte forma: eu fazia uma breve introdução de cada vinho e depois partia para o serviço enquanto a Márcia completava as informações e conduzia a análise sensorial.

Na verdade, eu abri os trabalhos me apresentando e apresentado a Márcia. Depois expliquei aos presentes a proposta que havíamos preparado para àquela noite. Tenho uma ótima recordação desse dia pois conseguimos reunir um público que estava disposto a conhecer e desbravar esse universo dos brancos. Não havia NENHUM vinho tinto. Nem de surpresa…rs

AGORA DEU BRANCO!

  • Stellenrust Chenin Blanc 2015 – 13% – Stellenbosch – 100% Chenin Blanc – um sul-africano com fermentação de 20% do vinho em barris de carvalho. Depois estagiou por mais 5 meses sobre as leveduras. É um vinho interessante que apresentou no olfato aromas de frutas brancas, citrícas com toques florais. No palato apresentou bom equilíbrio e volume com uma textura quase cremosa mas muito agradável. Acidez bem integrada ao vinho. Final ligeiro com retrogosto frutado com toques de pêra e grapefruit.
  • Claude Val Blanc 2015 – 13% – Languedoc – 35% Grenache Blanc, 25% Rolle, 15% Chasan, 10% Mauzac, 10% Sauvignon Blanc e 5% Chenin Blanc – Uau! Um blend com 6 castas. Como era esse vinho? Bom, de início, Paul Mas (produtor desse vinho) é orgânico. De coloração citrina com reflexos esverdeados. No nariz apresentou notas cítricas, principalmente de limão siciliano além de frutas de caroço e floral (acácia). Em boca, com uma acidez viva e retorgosto frutado, é um vinho leve, fácil de beber e com um equilíbrio cativante e com boa persistência.
  • Château des Gillières Sur Lie Grand Réserve 2014 – 12% – Vale do Loire – 100% Melon de Bourgogne – incrível expressão de clima fresco! Cor citrina sem reflexo. Puríssima expressão de mineralidade e frutas de clima fresco com destaque para as predominantes notas cítricas e as notas de frutas verdes. Toques de leveduras e uma textura agradável premiam o palato, que é, agradavelmente, mineral e mordaz.
  • Luis Cañas Blanco Fermentado en Barrica 2015 – 13,5% – Rioja Alavessa – 85% Viura e 15% Malvasia – as vinhas possuem mais de 60 anos. A Rioja Alavessa possui uma certa influência oceânica apesar da proteção da Serra da Cantábria. Cor palha de média intensidade com tons esverdeados. No nariz entrega uma fruta madura como maçã, toques cítricos e ervas. Em boca apresentou-se balanceado, mineral e com finas notas de amêndoas. Textura cremosa e final persistente.
  • Renosu Bianco (Sem safra) – 13,5% – Sardenha – Rolle e Moscato – um vinho da ilha da Sardenha com clima mediterrâneo com importantes excursões térmicas proporcionadas pelas suaves colinas de 300 m de altitude. Vinhas de mais de 40 anos manejadas de forma natural. Estamos diante de um vinho laranja, vinho branco que foi vinificado com as cascas. É um corte de três safras: 2008, 2009 e 2010. Amadureceu entre 24 a 36 meses em tanques de cimento inerte. Cor dourada intensa com relfexos alaranjados. Maduro e dinâmico no olfato com notas de pêssegos seguido de ervas mediterrâneas e com generosa mineralidade. Em boca é um conjunto prazeroso de equilíbrio distinto com um final persistente. Vinho para iniciados!
  • Alvarinho Parcela Única 2009 – 13,5% – Vinho Verde – 100% Alvarinho – este vinho foi concebido após 10 anos com estudos sobre 20 parcelas, onde uma e somente uma se destacou ao longo desse tempo. Fermentação em barricas de carvalho de segundo uso por 9 meses com periódicas bâtonnages. Permanência de 6 meses em garrafa antes de sair pro mercado. Amarelo palha intenso com reflexos dourados. Cheio de caráter mineral no olfato num contexto de uma paleta aromática ampla e sóbria que ainda entregou notas cítricas e ervas frescas. O ataque gustativo é intenso com ótima textura, de uma pulsante mineralidade, acidez vibrante e com notas do breve contato com as leveduras. Apesar dos seus 9 anos de idade, é um vinho que ainda vai crescer na sua curva de evolução. Um alvarinho de terroir!

Saúde e até o próximo post.
Rafael Puyau

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