E por acaso, harmonizei!

Toda vez que entro em sala para ministrar alguma certificação, seja WSET ou FWS, reparo na ansiedade e na expectativa estampadas nos semblantes dos alunos para a seção de harmonização. Principalmente nas certificações WSET 1 e WSET 2 ministradas em todo o território brasileiro pela Enocultura.

Nos cursos livres ou de especialização, o sentimento por aprender mais sobre harmonização é o mesmo. É inegável que esse termo – HARMONIZAÇÃO – é o mais buscado pelos alunos e por todas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, ingressam no mundo dos vinhos. Entretanto, para entender sobre harmonização, é importante entender sobre outros assuntos como o cultivo no vinhedo e o processo de vinificação dos vinhos. Depois, entender os parâmetros e o que funciona, o que não funciona e os elementos que merecem uma atenção especial.

É um assunto muito rico e, claro, estou falando aqui de forma bem resumida. Não pretendo esgotar o assunto neste post. Minha intenção é, realmente, falar de uma harmonização que não planejei mas que acabou acontecendo por acaso, e confesso, ficou muito boa!

Costumo receber no meu e-mail, algumas promoções de vinhos de diversas importadoras. Uma delas, em especial, me chamou a atenção que foi o jerez Cruz Conde PX 5 Años Solera 1902 que a Winelands divulgou via mailing.

VINHO

Este vinho é produzido na D.O. de Montilla-Moriles na região de Andaluzia no sul da Espanha pela Bodegas Cruz Conde. Elaborado pelo famoso e tradicional sistema de solera, que consiste na técnica de “misturar” vinhos de safras mais recentes com vinhos mais antigos, sendo envelhecidos e originando um vinho único.

O vinho base desse jerez data de 1902! Este licoroso é produzido com 100% da casta Pedro Ximénez passificada – processo no qual a uva seca, perdendo água, e concentrando açúcar – e é envelhecido em barricas de carvalho americano por 5 anos.

Como eu mencionei anteriormente, é um vinho único e complexo. Com uma coloração âmbar com nuances para o marron, sendo brilhante, límpido e com lágrimas bem presentes escorrendo lentamente pela taça. Em nariz mostrou toda sua amplitude com aromas de figo em compota, ameixas negras em calda, tâmaras, castanhas, café torrado e com uma exuberante e presente nota de caramelo. No palato, resume-se como denso, encorpado, doce e cremoso. Acidez vibrante com muito equilíbrio entre seus componentes, confirmando os aromas percebidos no nariz e com ótima persistência gustativa. A cada gole, uma nuance diferente que abraçava o palato revelando-se num retrogosto agradavelmente  complexo.

Casta : 100% Pedro Ximénez
Teor alcoólico : 15%

BOMBONES

Em maio de 2018, levei um grupo de ex-alunos da certificação WSET 2 à Mendoza para mostrar todas as facetas da malbec. Não podemos nos restringir e achar que o malbec argentino se resume aos rótulos que chega aqui no Brasil à preços acessíveis. É muito mais do que isso! Entre bons restaurantes, ótimos vinhos, muitas visitas à vinícolas, reservei um tempo para levar para casa algumas lembranças argentinas.

Minhas filhas estavam na expectativa por alguma coisa, sem falar na esposa. Assim, fui para a árdua tarefa de buscar algo para trazer ao Brasil. Nessa andança, acabei entrando numa loja da Havanna, pausa para um cafezinho para me recompor do frio que fazia na cidade de Mendoza, e levar alguma guloseima pra casa. E é claro que comprei o famoso doce de leite argentino, além dos bombones. Naquele momento nem passou pela minha cabeça em harmonizar com o PX Cruz Conde que tinha em casa. Pensei, realmente, nas minhas meninas que estavam em casa com água na boca.

Bombones é uma régua com 8 sabores de bombons sortidos e recheados com o tradicional e delicioso doce de leite Havanna – 100% argentino – e produzido de forma artesanal. Incrível!

HARMONIZAÇÃO

Diante dessas duas delícias, a harmonização não tinha como ser mais fácil e prazerosa. Importante notar e lembrar que o vinho deve ser de igual doçura ou mais doce que a sobremesa. Os bombones apesar de serem recheados com doce de leite, eram delicados e com uma persistência gustativa mediana, mas com ótima sensação tátil no palato.  A acidez vibrante do jerez equilibrou os dois elementos – vinho e bombons – fazendo-nos salivar bastante e dando mais suculência para esse encontro divino. A aromaticidade do vinho casou super bem com as notas de chocolate e do doce de leite. Era pra degustar de joelhos!

Fica a dica e o gostinho de quero mais…hummmm.

Saúde,
Rafael Puyau

2 thoughts on “E por acaso, harmonizei!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.